Mesmo falsos, 'diários de Hitler' entram em arquivo histórico da Alemanha
Anotações de ex-líder nazista
publicadas na revista Stern tiveram falsificações comprovadas, mas para
Arquivo Nacional do país, as inverdades também fazem parte da história
NYT |
Quando o semanário alemão Stern anunciou em abril de 1983
que havia adquirido diários inéditos de Hitler, a matéria exclusiva da
revista foi sensação mundial. Os editores prometeram que depois
entregariam os mais de 60 volumes escritos à mão para o Arquivo Nacional
da Alemanha Ocidental para que fossem preservados para a
posterioridade.
No entanto, o furo publicado pela revista acabou se
transformando em um desastre público, quando descobriu-se logo depois
que os supostos diários eram falsificados. Leia também:Cartão postal escrito por Hitler na 1ª Guerra é encontrado
Reprodução
Diários de Adolf Hitler (1889-1945) tiveram a autenticidade contestada e foram provados falsos
Saiba mais:Quadro pintado por Hitler aos 23 anos é leiloado por R$ 73,5 mil
Agora, em um desfecho improvável 30 anos depois, a
história falsa foi formalmente consagrada como verdadeira essa semana,
quando o Arquivo Nacional da Alemanha disse que aceitariam a coleção de
diários falsificados da Stern como notícias de mídia, em vez de parte da
história nazista.
"Os diários falsificados de Hitler são documentos do
passado", Michael Hollmann, presidente do Arquivo Nacional, disse em uma
declaração conjunta com a Stern na terça-feira. "Eles estão em boas
mãos no Arquivo Federal." Leia também:Túmulo de aliado de Hitler em cemitério da Alemanha é destruído
Em 1983, os editores de Stern, deram ao repórter Gerd
Heidemann milhões de marcos para comprar o que acreditavam ser uma
coleção significativa de anotações escritas por Hitler, bem como outros
documentos. A capa da revista declarou: "Descobertos os Diários de
Hitles", em cor vermelha sob uma fotografia de cadernos pretos. Os
diários também foram comprados pela publicação britânica Sunday Times.
A descoberta foi imediatamente recebida com ceticismo por
especialistas, mas o historiador inglês Hugh Trevor-Roper, que também
era conhecido como Lord Dacre, declarou que os diários eram genuínos,
legitimando a descoberta. A reputação de Dacre foi arruinada quando
analistas do Arquivo Federal e da Polícia Criminal Federal da Alemanha
determinaram que as supostas memórias de Hitler eram falsas. Edgar Feuchtwanger: Judeu alemão relembra infância como vizinho de Hitler
Os supostos diários haviam sido escritos por um
traficante de relíquias nazistas de Stuttgart, na Alemanha, chamado
Konrad Kujau. Kujau e o jornalista Gerd Heidemann foram condenados por
fraude.
O caso provocou um profundo exame de consciência na Stern
e os funcionários da revista participaram de protestos contra o que
caracterizavam de desprezo da diretoria com os canais editoriais
tradicionais por comprar e, eventualmente, publicar partes dos diários
sem confirmar a autenticidade deles.
"Os diários falsos fazem parte da história da Stern",
disse Dominik Wichmann, editor-chefe da Stern, no comunicado na
terça-feira. "Não queremos ignorá-los, mas sim lidar com eles de forma
adequada e factual. Por isso decidimos dar os diários para o Arquivo
Nacional." Memória: Historiador decifra 'carisma' de Hitler e vê paralelos em mundo de hoje
O arquivo é a instituição central da memória para o
governo alemão, e tudo, desde as atas de reuniões do gabinete a
procedimentos do Ministério dos Transportes, é preservado em seus livros
e catálogos, que atingiriam cerca de 300 quilômetros caso fossem
colocados em uma linha reta.
“Esses documentos são de grande significado para a
história passada e a história da imprensa", disse Thekla Kleindienst,
porta-voz do arquivo. “Tudo que se lê nos papéis e que no dia seguinte
não tem importância, nós preservamos por toda eternidade." Por Chris Cottrell e Nicholas Kulish
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